Impacto do biodiesel no Índice de Inflação brasileiro: uma análise exploratória
- 2 de jan.
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Publicação original
Autores: Aniela Fagundes Carrara, Cláudia Regina Heck.
Meio de publicação: Revista de Economia da Universidade Federal do Paraná . v. 44 n. 83 (2023).
Qualis: B1 - Economia
Resumo Divulga FE
Autor: Maria Eduarda Souza Menegotto
Orientador: Prof. Wladimir Colman de Azevedo Junior
Contextualização:
A O Brasil é reconhecido no mundo todo por sua experiência no uso de biocombustíveis, desde a criação do Programa Pró-álcool na década de 1970. A partir de 2004, o governo federal lançou o Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB), com objetivos que vão além da transição energética, como promover o desenvolvimento rural e a inclusão de pequenos produtores.
No contexto dos dias atuais, em que as políticas ambientais assumem um papel central, o crescimento da produção de biodiesel enfrenta novos desafios, especialmente a compreensão dos efeitos de seus preços sobre a economia do país. O artigo de Carrara e Heck (2023) busca investigar se o comportamento dos preços do biodiesel impacta o índice geral da inflação (IPCA), considerando que esse combustível, ao ser introduzido ao setor energético, pode influenciar a formação de preços ao longo de cadeias produtivas, podendo ser pelo aumento dos custos energéticos de insumo para produção ou pela interação entre os mercados agrícola, de energia e combustíveis, o que repercute sobre o nível dos preços e da inflação.
Portanto, essa respectiva pesquisa tem caráter exploratório, pretendendo ampliar a compreensão sobre a política energética do Brasil e suas possíveis repercussões e impactos macroeconômicos.
Sobre o Artigo
O artigo inicia com uma contextualização sobre as políticas de biocombustíveis no Brasil, destacando que o PNPB se baseou em três pilares: a obrigatoriedade da adição gradual de biodiesel ao diesel fóssil, a criação do Selo Combustível Social para inclusão da agricultura familiar e a organização de leilões públicos pela ANP para aquisição do produto. Apesar dos benefícios sociais e ambientais, a produção de biodiesel ainda depende fortemente da soja como principal matéria-prima, o que limita a diversificação e cria dependência entre os preços agrícolas, os combustíveis fósseis e o biodiesel. Essa integração, conforme a literatura discutida pelas autoras, gera mecanismos de transmissão de preços entre mercados energéticos e agrícolas, afetando potencialmente o índice geral de preços.¹
A metodologia adotada foi quantitativa, baseada em séries temporais mensais no período de 2013 a 2020, aplicando o modelo VEC (Vetores Autorregressivos com Correção de Erro). As variáveis incluídas foram: preço do biodiesel (BIOD), obtido nos leilões da ANP; taxa de câmbio (CÂMBIO); hiato do produto (HIATO), medindo o nível de atividade econômica; expectativas de inflação (EXPECT); e IPCA, como variável representativa da inflação. O uso do modelo VEC pressupõe a existência de cointegração entre as séries analisadas, permitindo avaliar simultaneamente os ajustes de curto prazo e as relações de equilíbrio de longo prazo entre as variáveis, já que a presença dessa cointegração para esse modelo indica que mesmo com os desvios no curto prazo, as variáveis tendem a convergir para um equilíbrio no longo prazo. Os resultados mostram que o preço do biodiesel tem uma influência relevante e duradoura sobre o IPCA. A análise da variância mostrou que o biodiesel explica 11% da variação da inflação, valor expressivo considerando o peso de outras variáveis macroeconômicas.
As funções de impulso-resposta revelaram que um aumento de 1% no preço do biodiesel eleva o IPCA gradualmente, atingindo o pico no quarto mês e dissipando-se apenas após sete meses. Isso demonstra transmissão lenta e persistente, tanto de forma direta quanto indireta, por meio das expectativas de inflação dos agentes econômicos. Além disso, as análises históricas de 2017 a 2020 indicaram que choques inesperados no preço do biodiesel contribuíram para elevações não previstas da inflação, especialmente em 2020, quando o produto teve forte alta.
¹ A transmissão de preços entre setores ocorre quando variações nos custos de um insumo fundamental, como a energia, são repassadas ao longo das cadeias produtivas, influenciando os preços de bens intermediários e finais. No caso do biodiesel, Carrara e Heck (2023) destacam que sua produção está fortemente vinculada ao mercado agrícola, especialmente à soja, e ao mercado de combustíveis fósseis. Dessa forma, aumentos no preço da soja ou do diesel fóssil tendem a elevar o custo de produção do biodiesel, que, por sua vez, impacta setores dependentes de transporte e energia. Esse encadeamento evidencia como choques de preços em um setor específico podem se propagar para outros segmentos da economia. Esse processo de transmissão afeta o consumidor final de maneira gradual, mas persistente. À medida que os custos mais elevados são repassados pelas empresas ao longo da cadeia produtiva, observa-se um aumento nos preços dos bens e serviços consumidos pelas famílias, refletido no IPCA. Além disso, o artigo ressalta que essa transmissão não ocorre apenas de forma direta, mas também por meio das expectativas de inflação dos agentes econômicos, que ajustam preços antecipadamente diante de aumentos contínuos nos custos energéticos, ampliando o impacto inflacionário observado (CARRARA; HECK, 2023).
Considerações do Divulga FE
O artigo de Carrara e Heck (2023) é relevante por abordar um tema ainda pouco explorado na literatura econômica brasileira: a relação entre políticas de biocombustíveis e inflação. A principal contribuição do estudo está em demonstrar empiricamente que o biodiesel, apesar de representar uma fonte de energia limpa, não é neutro em termos macroeconômicos, podendo influenciar o nível geral de preços. Esse resultado dialoga com a literatura que aponta a importância dos custos energéticos na formação da inflação, especialmente nas economias em que o transporte e a produção são dependentes de combustíveis (BARROS, 2020).
Sobre a metodologia, o uso do modelo VEC traz rigor a análise e permite identificar tanto os efeitos de curto quanto de longo prazo entre as variáveis analisadas, mas, as autoras reconhecem que a pesquisa é exploratória e que novas investigações devem incluir outras variáveis, como os preços internacionais do petróleo e dos alimentos, para aprofundar melhor a análise, considerando a interdependência entre os mercados agrícolas, energéticos e o nível dos preços. Todos esses fatores são centrais para compreender os canais de transmissão inflacionária no país.
Para contribuição de um debate público e a formulação de políticas econômicas, o estudo alerta que políticas ambientais e energéticas devem ser pensadas também sob a ótica econômica, visto que podem gerar efeitos inflacionários, reforçando a necessidade de um equilíbrio entre sustentabilidade e estabilidade de preços. Assim, a transição para uma matriz energética mais limpa exige um planejamento macroeconômico para reduzir potenciais impactos na inflação, evitando que os custos dessa transição recaiam sobre o consumidor final. Essa discussão se torna ainda mais relevante no contexto atual de alta dos combustíveis e transição energética global.
Glossário
Biodiesel: Biocombustível derivado de óleos vegetais ou gorduras animais;
IPCA: Índice de Preços ao Consumidor Amplo, o indicador oficial da inflação no Brasil;
PNPB: Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel;
VEC: Modelo de Autorregressão Vetorial com Correção de Erro, usado para avaliar relações de longo prazo entre variáveis econômicas;
ANP: Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis.



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