Limites do Novo Consenso Macroeconômico e Surgimento de uma Macroeconomia Financeira
- 26 de dez. de 2025
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Publicação original
Autores: Leonardo Flauzino de Souza, Saulo de Arruda Alencar.
Meio de publicação: Revista Economia Ensaios. v. 35 n. 1 (2020).
Qualis: B2 - Economia
Resumo Divulga FE
Autor: Luís Eduardo Quinteiro Montenegro
Orientador: Prof. Wladimir Colman de Azevedo Junior
Contextualização:
A ciência econômica, ao contrário do senso comum, é um campo do conhecimento pertencente às ciências sociais, não às ciências exatas. Por isso, o conflito de ideias é um fenômeno constante na Academia.
Nesse sentido, no ensaio "Limites do Novo Consenso Macroeconômico e Surgimento de uma Macroeconomia Financeira", o professor da FE, Leonardo Flauzino, junto ao também economista, e ex-aluno do curso de graduação em Ciências Econômicas da UFMT, Saulo de Arruda Alencar, analisam as políticas macroeconômicas dos EUA no período de 2000 a 2017 e as diferentes perspectivas sobre o tema, buscando elementos ausentes no Novo Consenso Macroeconômico (NCM) que consigam explicar a crise de 2008.
Sobre o Artigo
O NCM constitui um arcabouço teórico que se estabeleceu como corrente dominante na Ciência Econômica ao final do século XX e início do XXI. Fundamentado em 3 equações que correlacionam inflação e produto, expectativas do produto futuro e o produto corrente, e o comportamento da taxa de juros e a demanda agregada, o Novo Consenso Macroeconômico embasou as decisões de diversos Bancos Centrais ao redor do mundo.
Entretanto, o modelo considera que o mercado financeiro é neutro* e que a política fiscal é ineficaz* no controle das variáveis macroeconômicas. Justamente esses dois pontos são identificados pelos autores como chave para compreender a crise de 2008 e estão ausentes no arcabouço teórico.
Para entender como esses elementos explicam a recessão, os autores analisaram a política econômica dos Estados Unidos pós-estouro da bolha ponto-com*. Foi nesse momento que os questionamentos ao consenso ganharam força.
Nesse cenário, o Federal Reserve (equivalente americano ao Banco Central do Brasil) respondeu à desaceleração do crescimento do PIB, reflexo do estouro da bolha, com a redução da taxa de juros básica. Essa medida se mostrou eficaz, como demonstraram a recuperação do crescimento e a estabilidade da inflação.
Posteriormente, devido ao aquecimento da economia, foi necessário o aumento dessa taxa, o que também se mostrou eficiente e promoveu certa estabilidade econômica até a crise de 2008.
Esse aumento na taxa de juros básica também provocou um aumento gradativo de empréstimos de maior risco e da inadimplência. Como o NCM considera o mercado financeiro neutro, essa questão foi ignorada na época.
O mercado de "ativos podres" seria o responsável pelo crescimento da dívida do setor privado e, eventualmente, pelo estouro da crise de 2008. O Banco Central norte-americano respondeu a esse problema com a compra de títulos públicos de longo-prazo (Quantitative Easing*), aumentando a solvência das instituições afetadas.
Os autores explicam que tanto a origem do problema quanto as medidas tomadas pelo governo americano estavam fora do escopo do NCM. Para compreender o processo de endividamento do setor privado, é necessário notar que processos desse tipo estão associados ao crescimento dos gastos na economia.
Nesse contexto, os agentes financiam esses gastos através do sistema financeiro. Ou seja, o aumento dos déficits privados é causado pela expansão do consumo e do investimento.
Através desse raciocínio, os autores também explicam dois pontos centrais: o porquê de crises financeiras terem impacto real na economia, e porque a dívida pública tem uma relevância menor que a privada.
Assim como o aumento nos déficits privados é causado pela expansão do consumo e do investimento, a redução da liquidez durante crises financeiras provoca a redução do consumo e do investimento (80% da economia dos EUA). Além disso, o setor público não sofre do problema de liquidez do setor privado, uma vez que apenas o segundo precisa, eventualmente, reverter seus déficits.
Considerações do Divulga FE
Embora o NCM seja tratado como "manual" de política macroeconômica, ainda existem elementos ausentes e pontos em que o modelo pode ser melhorado. Após a primeira década do atual milênio, autores como Olivier Blanchard, teórico do NCM, propuseram melhorias ao modelo, incluindo pontos como a política fiscal e a não-neutralidade do mercado financeiro.
No Brasil, figuras como André Lara Resende apresentam um contraponto ao consenso da economia ortodoxa.
O caso da crise de 2008 e do NCM explorado no artigo é apenas um exemplo de como o conhecimento na Ciência Econômica se beneficia das divergências entre os autores. Casos famosos como o de Adam Smith e David Ricardo, que divergiam sobre o comércio internacional, e o de Keynes e Hayek, que debateram sobre a intervenção do governo na economia, são outros exemplos desse fenômeno.
Atualmente, o debate acerca do NCM permanece de grande relevância para a política econômica brasileira. O Banco Central do Brasil, por exemplo, fundamenta muitas de suas decisões nos pressupostos do consenso, tornando-se alvo de críticas daqueles que se contrapõem ao modelo.
Essa discussão demonstra que a ciência econômica continua evoluindo através do confronto de ideias, e que modelos aparentemente consolidados podem – e devem – ser questionados quando a realidade revela suas limitações. A crise de 2008 serviu como um laboratório natural que expôs as fragilidades do NCM, reforçando a importância do debate acadêmico para o aperfeiçoamento das políticas econômicas.
Glossário
Novo Consenso Macroeconômico: arcabouço teórico baseado no “tripé macroeconômico”: regime de metas de inflação, câmbio flutuante e superávit primário. Objetiva um ambiente macroeconômico estável e uma política monetária confiável;
Mercado Financeiro Neutro: apenas um “canal de transmissão” da política monetária, ou seja, eleva ou reduz as demais taxas de juro da economia com base na taxa básica. Seria apenas um “intermediador” entre agentes deficitários e superavitários;
Solvência: capacidade de honrar suas atribuições financeiras no curto, médio e longo prazo;
Política Monetária: é a atuação do governo sobre a quantidade de moeda, crédito e juros em circulação na economia. São instrumentos de política monetária a taxa básica de juros e a taxa de depósito compulsório;
Política Fiscal: ou política orçamentaria, é o controle das despesas e receitas do Estado. São exemplos política fiscal o aumento/diminuição de impostos e gastos do governo;
Bolha Ponto-com: ou bolha da internet, foi um fenômeno especulativo que supervalorizou empresas de internet na Bolsa de Valores americana ao final da década de 90;
Crise de 2008: crise financeira provocada principalmente pela expansão de empréstimos hipotecários de alto risco para famílias sem condições arcar com os compromissos. A falência do banco Lehamn Brothers é entendida como o evento inicial da crise;
Quantitative Easing: política monetária que consiste na aquisição de ativos financeiros visando estimular a economia ampliando a solvência das instituições privadas;
Endividamento Privado: Somatória do total de dívidas das famílias e empresas. Abrange tanto o crédito tradicional, obtido através de bancos, como o obtido através do mercado financeiro como debêntures (títulos de dívida) emitidos por empresas;
Endividamento Público: Somatória do total da dívida de um Governo à entidades privadas ou outros Governos. Diferencia-se do endividamento privado pois o governo não necessariamente precisa reverter seus déficits. Além disso, o Governo é emissor dos Títulos da Dívida e detentor do controle da taxa básica de juros e da emissão da moeda nacional, por isso não existe o problema da solvência enfrentado por entidades privadas;
Sistema Financeiro: É o conjunto de instituições, mercados e regras que permitem o fluxo de moeda na sociedade. Permite o “encontro” de agentes credores e devedores. No Brasil, o Conselho Monetário Nacional e o Banco Central do Brasil são as principais instituições públicas que determinam as regras e garantem a fiscalização e execução, respectivamente.



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