O Produto interno bruto do Brasil ajustado pela depreciação do solo agrícola
- 19 de dez. de 2025
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Publicação original
Autores: Wladimir Colman de Azevedo Junior, Antônio Cordeiro de Santana.
Meio de publicação: Revista de Economia e Sociologia Rural. v. 60 n. 2 (2022).
Qualis: A1 - Economia
Resumo Divulga FE
Autor: Aloi Derso Carvalho da Silva Junior
Orientador: Prof. Wladimir Colman de Azevedo Junior
Contextualização:
O Brasil é conhecido por possuir uma vasta área destinada à agricultura. A elevada produção e exportação agropecuária, aliada ao crescimento da indústria agrícola brasileira, torna o agronegócio um tema central de interesse nacional.
Entretanto, as mudanças climáticas e o impacto da produção em escala sobre os recursos naturais têm provocado discussões sobre as consequências do crescimento econômico alicerçado no aumento da produtividade agropecuária, sobre o meio ambiente. Como analisado por Santos et al. (2022), o uso excessivo do solo pode levar à redução da área agricultável do país; como consequência, teríamos uma dupla redução do PIB nacional, pela diminuição da produção agropecuária e pela redução do ativo ambiental que compõe o estoque de recursos naturais brasileiro.
O professor Wladimir Colman de Azevedo Junior e sua equipe, ao analisar a participação da agropecuária no PIB brasileiro, questionam qual o impacto produtivo deste setor sobre a fertilidade do solo e qual o impacto do gasto com a recuperação de sua fertilidade sobre o estoque de capital brasileiro.
Sobre o Artigo
A produção agrícola no Brasil obteve um crescimento de 93% entre as décadas de 1990 e 2015, juntamente com o uso de fertilizantes, que no mesmo período cresceu em 27,7 milhões de toneladas. Essa expansão produtiva foi acompanhada de aumento na produtividade e contribuiu para o crescimento econômico nacional, por meio de mudanças na estrutura do trabalho e aumento da produtividade dos fatores de produção. Entre as principais mudanças responsáveis pelo crescimento da produtividade estão os fertilizantes químicos utilizados no solo agrícola.
Para algumas correntes teóricas, o uso do solo a níveis como os vistos no Brasil poderia provocar a redução da quantidade de nutrientes no solo, levando à sua acidificação. Neste sentido, o trabalho mensurou os impactos do crescimento da produtividade agropecuária brasileira, sobre a quantidade de nutrientes na camada agricultável do solo para a área colhida pelos principais cultivos nacionais.
Utilizou-se como base o balanço de nutrientes para estimar a quantidade de nutrientes incorporados e retirados do solo durante o ciclo produtivo. A partir destes dados, calcula-se o PIBA (Produto Interno Bruto Ambiental), que possibilita descontar do PIB o desgaste do solo e medir a relação entre a produção e o estoque de recursos naturais, tendo o solo como um ativo ambiental imobilizado para a produção.
O primeiro passo, portanto, foi a estimação dos fluxos físicos de retirada de nutrientes, que ocorre por meio da absorção realizada pelas cultivares durante seu crescimento e da aplicação de nutrientes por meio da aplicação de fertilizantes e da fixação biológica do nitrogênio. Estes fluxos físicos foram então monetizados considerando os valores comerciais dos três nutrientes considerados: nitrogênio (N), fósforo (P) e potássio (K). A retirada estimada para o ano de 2010 foi de R$11.687 milhões, representando o desgaste provocado à fertilidade do solo, enquanto a reposição foi de R$ 15.833 milhões, representando o investimento na recuperação do poder produtivo inicial. O saldo final positivo de R$ 4.146 milhões, embora indique a inexistência de perda de fertilidade, pode indicar a poluição do solo e das águas do subsolo.
O resultado do PIBA brasileiro foi de R$3,881 bilhões e o PIBA agropecuário, R$162 bilhões; por isso, o efeito circular com o incremento da demanda exógena, pode levar a maiores aumentos na produção e no valor agregado, podendo até quadruplicar a cada elevação em R$1 milhão das exportações de produtos da agropecuária. Os efeitos econômicos da produção agropecuária aumentam a demanda de outros setores e por serviços públicos.
A agropecuária demonstra papel central no crescimento econômico brasileiro, com efeitos multiplicadores significativos sobre outros setores. No entanto, a análise do balanço de nutrientes revela uma contradição estrutural: embora o setor tenha demonstrado capacidade técnica de repor integralmente a fertilidade do solo extraída pelos cultivos, o excedente resultante configura-se como passivo ambiental, não como investimento adicional em produtividade. Esse excedente evidencia que o modelo produtivo brasileiro prioriza a segurança da produtividade através da aplicação excessiva de fertilizantes, gerando riscos de eutrofização de corpos d'água, contaminação de aquíferos e degradação do solo a médio prazo.
Considerações do Divulga FE
Os autores notaram que os gastos com a recuperação da fertilidade do solo não são tão expressivos no nível de produção nacional. As técnicas utilizadas na produção agrícola permitem aumento da produtividade, produzindo excedente no mesmo ano da produção, repondo completamente o desgaste do solo. Contudo, esse excedente de N, P e K pode poluir os rios e águas subterrâneas, tornar o solo impróprio para cultivo e causar morte da fauna local.
O Brasil é um dos maiores consumidores de fertilizantes do mundo e, para evitar desperdício de dinheiro e a poluição do solo, água e ar, recomenda-se o uso de práticas agrícolas como agricultura de precisão, repondo os nutrientes nas quantidades necessárias, melhor programação, utilização de nutrientes de liberação lenta e calagem em quantidades adequadas para o solo local, evitando altos índices de poluição (Assad et al., 2012), sendo uma alternativa para que o setor agropecuário saia da lista dos setores que mais poluem o meio ambiente (Silva, F.C et al., 2023).
Diante dessa discussão, vemos que a produção agrícola e a preservação ambiental precisam caminhar juntas para garantir o crescimento e desenvolvimento econômico e o futuro das novas gerações, mantendo o solo, o ar e a natureza em condições ótimas de sobrevivência e produtividade humana. Buscar outros modos de produção e tecnologias mais precisas de manutenção do solo podem ser o caminho para garantir o equilíbrio ambiental e a resiliência deste setor perante as mudanças climáticas.
Os resultados deste estudo demonstram que, embora o agronegócio brasileiro tenha desenvolvido capacidade técnica para repor a fertilidade do solo, o excedente de nutrientes aplicados representa um desafio ambiental que não pode ser ignorado. A sustentabilidade do setor agropecuário — motor do crescimento nacional — depende da adoção de práticas que equilibrem produtividade econômica e preservação ambiental. Somente através da agricultura de precisão e do manejo adequado de fertilizantes será possível conciliar o papel estratégico do agronegócio no crescimento do país com a urgente necessidade de proteger nossos recursos naturais para as gerações futuras. O caminho para um agronegócio verdadeiramente sustentável passa necessariamente pela transformação das práticas atuais, substituindo o modelo de aplicação excessiva de insumos por sistemas inteligentes que otimizem recursos e minimizem impactos ambientais.
Glossário
Mudanças Climáticas: Alterações de longo prazo no clima da Terra.
PIB (Produto Interno Bruto): Valor total de bens e serviços produzidos em um país.
Fertilidade do Solo: Capacidade do solo de sustentar o crescimento das plantas.
Produto Interno Bruto Ambiental (PIBA): PIB que considera o uso e desgaste dos recursos naturais. Em outras palavras, é um indicador macroeconômico que engloba os recursos ambientais como ativos utilizados durante o processo produtivo.
Ativo Imobilizado: Bens físicos, duráveis e tangíveis que uma empresa utiliza em suas operações regulares para gerar renda, não sendo destinados à venda imediata.



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